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Monday, May 25, 2015

Definição.

Monday, May 25, 2015 1


Definição

O corpo é onde
é carne:

o corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

o corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

o corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

o corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.


Publicado no livro Canto e palavra (1965).
Affonso Romano de Sant'Anna


Inspirado, verdade, lindo. Celebração da vida, definição perfeita. Sou fã de carteirinha do poeta.

Poesia para começar bem a semana.


beijos,

Tina

Monday, October 27, 2008

"Abre Aspas"

Monday, October 27, 2008 29

"É tão natural que eu te possua
é tão natural que tu me tenhas,
que eu não me compreendo um tempo
houvesse
em que eu não te possuísse
ou possa haver um outro
em que eu não te tomaria.


Venhas como venhas,

é tão natural que a vida
em nossos corpos se conflua,
que eu já não me consinto
que de mim tu te abstenhas
ou que meu corpo te recuse
venhas quando venhas.

E de ser tão natural
que eu me extasie ao contemplar-te,
e de ser tão natural que eu te possua,
em mim já não há como extasiar-me
tanto a minha forma
se integrou na forma tua."



Affonso Romano de Sant'Anna é um caso raro de artista e intelectual que une a palavra à ação. Nasceu em Belo Horizonte em 1937 e desde os anos 60 teve participação ativa nos movimentos que transformaram a poesia brasileira, interagindo com os grupos de vanguarda e construindo sua própria linguagem e trajetória. E é casado com a jornalista Marina Colasanti: linda dupla, não?

Ele tem mais de 40 livros publicados, além de ter sido professor em diversas universidades brasileiras - UFMG, PUC/RJ, URFJ, UFF, bem como no exterior - Universidades da Califórnia, Universidade de Köln na Alemanha e Aix-en-Provence em França.

Escreveu diversos artigos para jornais e como cronista no “Jornal do Brasil”, em 1984 substituiu ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade - que foi também objeto da sua tese de doutoramento (UFMJ), intitulada:"Drummond, o gauche no tempo", que mereceu quatro prêmios nacionais.

E foi também o criador do Sistema Nacional de Bibliotecas, que reúne 3.000 instituições e o PROLER ( Programa de Promoção da Leitura), que contou com mais de 30 mil voluntários e estabeleceu-se em 300 municípios em 1991 lançou o programa “Uma biblioteca em cada município” e teve vários textos convertidos em teatro, balé e música e tem diversos CDs de literatura gravados com sua voz e na voz de atores diversos.

Affonso recebeu algumas das principais comendas brasileiras - Ordem Rio Branco, Medalha Tiradentes, Medalha da Inconfidência, Medalha Santos Dummont. Agindo e sendo. (fonte)

Sant´Anna escreve coisas lindas: de dentro / para dentro do coração. Para os que amam verdadeiramente. Para quem de verdade - SENTE!

Eu ficaria falando / escrevendo dele e de poesia a tarde toda, mas não gosto de posts longos, portanto fica por aqui demonstrada a minha escolha em matéria de poesia / poeta e também a minha contribuição à blogagem coletiva chamada pela querida amiga Lunna. Junte-se a nós !

A semana é sempre linda quando começa com poesia.


beijos e boa semana a todos,

Tina

Thursday, November 01, 2007

Paz

Thursday, November 01, 2007 30
by Affonso Romano de Sant’Anna


"Os homens amam a guerra.
Por isso se armam festivos em coro e cores
para o dúbio esporte da morte.
Amam e não disfarçam.
alardeiam esse amor nas praças,
criam manuais e escolas,
alçando bandeiras e recolhendo caixões,
entoando slogans e sepultando canções.

Os homens amam a guerra.
Mas não a amam só com a coragem do atleta
e a empáfia militar, mas com a piedosa
voz do sacerdote, que antes do combate
serve a hóstia da morte.
Foi assim na Criméia e Tróia,
na Eritréia e Angola,
na Mongólia e Argélia,
na Sibéria e agora.

Os homens amam a guerra e mal suportam a paz.
Os homens amam a guerra, portanto, não há perigo de paz.
Os homens amam a guerra, profana ou santa, tanto faz.
Os homens têm a guerra como amante, embora esposem a paz.

...Durante séculos pensei que a guerra fosse o desvio
e a paz a rota. Enganei-me.
São paralelas, margens de um mesmo rio,
a mão e a luva, o pé e a bota.
Mais que gêmeas, são xifópagas,
par e ímpar , sorte e azar.
São o ouroboro - cobra circular
eternamente a nos devorar.

A guerra não é um entreato.
É parte do espetáculo.
E não é tragédia apenas,
é comédia, real ou popular,
é algo melhor que circo:
- é onde o alegre trapezista
vestido de kamikase
salta sem rede e suporte,
e o contorcionista se parte
no kamasutra da morte.

A guerra não é o avesso da paz.
É seu berço e seio complementar.
E o horror não é o inverso do belo
- é seu par.

Os homens amam o belo,
mas gostam do horror na arte.
O horror não é escuro,
é a contraparte da luz.

... Nem cínico nem triste. Animal
humano, vou em marcha, danças, preces
para o grande carnaval.

Soldado, penitente, poeta, a paz e a guerra,
a vida e a morte me aguardem
num atômico funeral.

Acabará a espécie humana sobre a Terra?
Não.
Hão de sobrar um novo Adão e Eva
a refazer o amor,
e dois irmãos: - Caim e Abel
a reinventar a guerra."

Este post faz parte da blogagem coletiva chamada pelo Lino: e chamar ou pedir a Paz nunca é demais. A gente tenta, faz, escreve, conclama, merece, chama e não desfaz: Quero PAZ!

E espero que os versos (bem escritos) que transcrevo fiquem para trás.

beijos e bom fim de semana a todos.


Tina
 
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