Cântico IV
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Cecília Meireles
Paulo Rónai a descreveu assim:
"Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo...A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.”
Cecília recebeu muito cedo “da vida” todas as armas para ser triste e desistir, literalmente. Seu pai morreu antes dela nascer, a mãe a deixa aos 3 anos de idade, anos mais tarde o marido se suicida. Não se deixou abater: encontrou na escrita, na poesia e no teatro a fuga -, melhor dizendo: uma saída brilhante. Fez tudo de maneira soberba, e todos saimos ganhando. Acho lindo os versos acima. Escreveria dela por horas seguidas. Publico minha homenagem.
Hoje seria seu aniversário. Cecília não nos deixou. Cecília marcou. Cecília merece.
Este post faz parte de blogagem coletiva chamada pelo Lino .
beijos,
Tina